quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Ogham e a cosmologia celta

Ogham e a cosmologia celta por Osvaldo R Feres


Cosmologia Celta
Acredita-se que os celtas concebiam o mundo de forma tripartida, ou seja, céu, terra e mar. Esse sistema tríplice aparece em diversos contos mitológicos e históricos, citados principalmente em juramentos, descrevendo a fúria da natureza e o temor que os homens possuíam do “céu caindo sobre suas cabeças, o mar subindo de sua margem e a terra se abrindo aos seus pés”.
Esses três reinos são mantidos em seus lugares, equilibrados, graças à Árvore do Mundo ou Bile, que os sustenta em um eixo vertical. A bile “árvore sagrada” é também citada como uma árvore de pedra no folclore irlandês, a Cloch a Bhíle “a pedra da árvore” é descrita como uma árvore de pedra que cresce no fundo de um lago e é sagrada para a deusa Aine e seu filho Gearoid Iarla que a escalavam para acessar o Outro Mundo1, desta forma, entendemos que a bile poderia ser tanto uma árvore, sagrada para uma determinada tribo ou uma pedra erguida, que assumia o papel de pilar do mundo. Na mitologia galesa a correspondente da bile gaélica talvez seja a Árvore verde e incandescente, descrita como a divisora entre o mundo dos mortais e o mundo dos imortais, de um lado sempre verde e florida e do outro sempre em chamas.
Devo ressaltar, contudo, que não há na mitologia celta nada parecido com a Yggdrasil nórdica em evidencia. Baseando-se no folclore e nos mitos, supõem-se que os celtas, assim como os nórdicos e eslavos, compreendiam o eixo do mundo como uma árvore ou pilar, o que é provado pelo conceito de bile, a árvore sagrada que ocupava um papel central nas tradições da tribo.

Cloch a Bhíle por Osvaldo R Feres

Minha interpretação da cosmologia celta
Assim como descrito, para mim, a cosmologia celta é tripartida, entretanto, diferente da popular divisão em céu, terra e mar, creio que haja um eixo vertical, representado normalmente por uma árvore sagrada (bile) ou pedra erguida (raramente uma montanha) que liga o céu, a terra e o submundo, e um eixo horizontal que divide a terra em quatro direções com o mar ao seu redor (o oceano que cerca a terra é tema comum em várias cosmologias indo-europeias (grega, eslava, nórdica e iraniana). Compreendo o mar, neste caso, como uma extensão da terra no eixo horizontal, enquanto o submundo ficaria em seu devido lugar, abaixo da terra no eixo vertical.
Segundo o Rev. John Adelmann (John fox Adelmann) da ADF o paraíso celta tem pouca ligação com o submundo ou o mundo subterrâneo, ele é identificado no plano horizontal, ao redor do centro e não abaixo. Este paraíso celta é fortemente associado ao mar2
Isto posto, a divisão cosmológica celta, segundo minha interpretação, ficaria assim:

Cosmologia Celta por Osvaldo R Feres

No centro, como eixo do mundo, está a bile, que liga todos os reinos.
Na copa da árvore encontra-se o Mundo Superior, conhecido como Albios3 na mitologia gaulesa, morada dos deuses celestiais, os que controlam o clima, a chuva e os ventos. Também é onde estão os corpos celestes, ou seja, os planetas, as estrelas, o Sol e a Lua (o Sol e a Lua não estão fixos na copa da Árvore, mas movimentam-se pelos mundos). Creio também que o mundo superior é habitado por deuses primordiais, muitas vezes hostis aos humanos, descritos como gingantes em estatura e poder, os habitantes das montanhas.
No centro da Árvore, em seu tronco, encontra-se o Mundo Médio, morada de todos os seres vivos, humanos, animais, vegetais e outros. Aqui está o nosso mundo, repleto de vida e espíritos da natureza, além dos deuses civilizatórios e selvagens. Ao redor do Mundo Médio encontra-se o oceano no eixo horizontal, cheio de ilhas e além da nona onda (fronteira entre os mundos) estão as Ilhas do Outro Mundo, onde as almas de guerreiros e heróis continuam a viver. Para os celtas, o submundo é a morada dos mortos, algo comum nos mitos indo-europeus, contudo, o oeste, lugar onde o sol se põe, é tradicionalmente a direção a qual as almas dos heróis mortos se dirigem, acompanhando o sol além-mar.
As principais Ilhas do Outro Mundo na mitologia gaélica são:
  • Tech Duinn: A Casa de Donn. Ilha para onde as almas dos mortos viajavam, aguardando a próxima reencarnação. Donn é um deus dos mortos, descrito como o ancestral dos gaélicos.
  • Tír na nÓg: Terra do Jovem ou Terra da Juventude. Descrita como uma terra de eterna juventude, onde não há doença ou velhice e é frequentemente visitada por heróis em Immram.
  • Tír na mBan: Terra das Mulheres. Terra paradisíaca habitada por mulheres fadas, visitada por Bran mac Febail e Máel Dúin.
  • Mag Mell: Planície da Alegria. Morada de heróis e ocasionalmente visitada por aventureiros.
  • Hy-Brasil: Ilha encantada a oeste, no Oceano Atlântico. Descrita como uma ilha fantasma que vaga pelo oceano envolta em brumas.
  • Emain Ablach: Ilha(?) das Maçãs. É o reino paradisíaco do deus do mar Manannán Mac Lir. Seu equivalente galês é Ynys Afallach e na mitologia medieval ficou conhecida como Insula Avalonsis ou Avalon, a ilha para onde foi levado o corpo moribundo do rei Arthur.
Talvez algumas ilhas tenham nomes distintos para um mesmo local no Outro Mundo.
No centro do Mundo Médio está um Sídhe, um monte fada, passagem para o Submundo. Abaixo, nas raízes da Árvore, está o Submundo, reino dos ancestrais, fadas e deuses ctônicos. Este local, descrito como a morada dos Tuatha Dé Danann , deuses ancestrais, compartilha com as ilhas do Outro Mundo, como o local de descanso dos mortos, conhecido na mitologia galesa como Annwn, o Submundo, morada de todos os que morreram de forma natural, acidente ou doença. No centro do Submundo está o Poço de Segais, fonte de todo conhecimento e sabedoria, cercado pelas nove aveleiras sagradas.

O Ogham e a cosmologia celta
Mas afinal, onde o ogham se encaixa na cosmologia celta?
Segundo Michael Kelly em seu livro The Book of Ogham, o diagrama conhecido como Janela de Fion é a representação da Árvore do Mundo celta. Como vimos, a cosmologia celta é composta por 3 mundos, o Mundo Médio onde vivemos, o Submundo e o Mundo Superior, esses mundos, por sua vez, são divididos em 4 direções ou províncias. O primeiro anel da Janela de Fion, composto pelos primeiros feda de cada aicme, ou seja, Beith, hÚath, Muin e Ailm, indicam as quatro direções do Submundo, o anel seguinte, composto pelas segundas letras de cada grupo seriam os 4 caminhos que ligam o Mundo Médio ao Submundo. O terceiro anel é formado pelas 4 direções do Mundo Médio e o quarto anel são os 4 caminhos que ligam o Mundo Médio ao Mundo Superior e finalmente, o quinto e último anel são as 4 direções do Mundo Superior. O eixo central não é um caminho, mas sim o meio pelo qual a energia flui entre os mundos.

Cosmologia celta e ogham por Osvaldo R Feres

Para Erynn Rowan a Janela de Fionn (Féige Find ou Fege Find) também é a representação do eixo do mundo, que liga os 3 reinos, contudo, Erynn propõe que a Janela de Fion foi colocada na cumeeira da casa celta da idade do ferro, no centro está o poste que sustenta o telhado e os feda compõe as hastes ao redor. Curiosamente as casas celtas da idade do ferro não haviam janelas, mas um buraco na cumeeira, por onde passava a fumaça da fogueira que ficava no centro da casa. Os feda seriam como estrelas que giram ao redor da árvore do mundo ou da estrela polar.

Telhado de uma casa celta disponível em: Resources for History

Ainda sobre a Janela de Fionn, Erynn Rowan afirma que aparentemente a Féige Find não tem ligações com as direções cardeais da tradição esotérica ocidental ou com a divisão da Irlanda em províncias (para cada província há uma qualidade ou característica atribuída como batalha ao norte, prosperidade ao leste, música ao sul e aprendizagem ao oeste) ou mesmo com os 4 tesouros dos Tuatha Dé Danann (o Caldeirão do Dagda, a Laça de Lug, a Espada de Núadha e a Pedra de Fál)

Janela de Fionn

Em Scéla Éogain ocus Cormaic assim é descrito o nascimento de Cormac Mac Art4
“Quando Cormac nasceu, o druida ferreiro Olc Aiche colocou sobre ele cinco anéis de proteção, contra assassinato, afogamento, fogo, feitiçaria, lobos, contra todo o mal.”
Supõe-se que esses cinco anéis ou marcas, citados acima, fossem a representação da Janela de Fionn e, desta forma, foi utilizado em rituais mágicos, entretanto, não há dados suficientes que sustente tal afirmação.
A melhor forma de trabalhar com a Janela de Fion é meditar sobre cada anel, como se fossem portais ou caminhos que ligam os reinos pela Árvore do Mundo. Uma boa forma de fazer essa meditação é através de “jornadas espirituais”, partindo do centro para as quatro direções e depois para cima ou para baixo, utilizando os feda como caminhos a serem explorados, que ligam reinos distantes.

Referências bibliográficas:
BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma luz sobre Avalon, celtas & druidas. Editora Mercuryo, 1994.
GRAVES, Robert. A Deusa Branca: Uma gramática histórica do Mito Poético. Editora Bertrand Brasil, 2003.
KELLY, Michael. The Book of Ogham. Ebook edition: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2014.
KONDRATIEV, Alexei. Rituales Celtas. Editorial Kier, 2001.
LAURIE, Erynn Rowan. Ogam: Weaving Word Wisdom. Megalithica Books, 2007.
MATSON, Gienna; ROBERTS, Jeremy. Celtic Mythology A to Z. Chelsea House, 2010.
MATTHEWS, John. Xamanismo Celta. Hi-Brasil Editora, 2002.
MONAGHAN, Patricia. The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folkore. Facts On File, 2004.
MUELLER, Mickie. Voice of the Trees. Llewellyn Publications, 2011.
MURRAY, Liz e Colin. The Celtic Tree Oracle, a system of divination. Connections Book Publishing, 2014.
SQUIRE, Charles. Mitos e Lendas Celtas. Editora Record, 2003.



Osvaldo R Feres /|\  

Nenhum comentário:

Postar um comentário